domingo, 21 de março de 2010

DAVI - Lugares Tranquilos

Por Ricardo Barbosa

A grande maioria da população mundial vive hoje nos grandes centros urbanos, nas megacidades, disputando um pequeno espaço que lhes proporcione um mínimo de conforto. Quando andamos pelas ruas dessas cidades ficamos impressionados com a quantidade de pessoas, carros, edifícios e barulho. Vemos homens e mulheres andando rapidamente por todas as direções; ouvimos vozes agitadas, nervosas e alegres, misturadas com outros ruídos do trânsito e das construções; sentimos odores variados de temperos e fumaças que congestionam as narinas. Nelas aprendemos a conviver com as enchentes e engarrafamentos, com o estresse da hora e dos inúmeros compromissos. Parece ser impossível viver nelas sem sentir-se ocupado, atrasado ou em falta com alguma coisa, mesmo sem saber com o quê. E nesse lugar que muitos vivem e passam seus anos numa correria intensa e desenfreada.

Os lugares onde muitos moram são minúsculos, apartamentos cada vez menores para dar lugar a outros tantos que vão entupindo nossas cidades. Saímos das ruas e escritórios aglomerados e entramos em nossas apertadas residências onde dividimos um pequeno espaço com outros que amamos. No final, depois de um dia cheio em lugares cheios, sentamos em frente à televisão para ver e ouvir os mesmos barulhos e agitos do dia que passou.

Para muitos é difícil encontrar, no meio de tudo isso, um lugar que se possa chamar de um lugar tranquilo, um lugar de repouso e descanso. No Salmo 23, Davi nos fala de um lugar tranquilo, às margens das águas de descanso, onde a alma é refrigerada e renovada. Com frequência ele nos fala dos lugares de refugio, das cavernas e esconderijos onde se abrigava a fim de renovar suas forcas e sua alma. A espiritualidade dos personagens bíblicos é construída em lugares onde com frequência paravam para orar, descansar e experimentar um novo toque da presença de Deus. Jesus mesmo convidava seus discípulos para um lugar à parte, fora do tumulto das multidões, para repousar. O mapa das viagens de Davi irá nos revelar uma infinidade desses lugares e altares que ele encontrou e construiu para recuperar-se das perseguições de Saul e do cansaço do seu coração.

Esses lugares são necessários para alimentar nossa alma. Precisamos deles, não para fugir do mundo, mas para compreendê-lo; não para nos afastarmos do trabalho e da rotina, mas para respondermos com mais responsabilidade a eles. Precisamos de um lugar onde a voz de Deus possa ser ouvida, um lugar onde o coração possa repousar. Fico pensando naquelas pessoas que passam a vida inteira procurando um lugar desses; como o filho pródigo, vivem longe de casa, cercados de gente, mas não de amigos; cheios de programas, festas, encontros e badalações, mas sozinhos; chega um dia em que olham para os lados e não encontram nenhum lugar seguro, nenhum canto para descansar.

Um lugar tranquilo não é necessariamente um espaço geográfico, uma ilha deserta ou uma pequena cabana no alto de uma montanha. É apenas um lugar onde nos encontramos com Cristo. Podemos transformar lugares hostis e barulhentos em pequenos momentos de oração e ações de graça. Um assento de ônibus, uma parada no trânsito, um intervalo entre reuniões, uma pausa no meio do dia. Quando aprendemos a criar esses espaços vazios, lugares que precisam ser preenchidos pela presença de Deus, nós os transformamos em lugares tranquilos. Nós nos sentimos cansados porque não sabemos parar, somos constantemente levados pela pressa dos outros, pela agenda dos que pensam que a vida é medida pelo acúmulo de bens ou compromissos que possuem. Às vezes chegamos a pensar que se pararmos o mundo não funcionará; nossa correria e agitação nos leva a pensar que a ordem do mundo depende de nossa agenda; não cremos mais num Criador.

No entanto, precisamos também dos lugares geográficos. Não me refiro à ilha ou à cabana, mas aos lugares onde se dão os nossos encontros. Precisamos dos jardins de oração ou dos desertos de solitude. Muitas vezes olhamos e percebemos que não temos nenhum lugar, nenhum pasto verdejante, nenhuma caverna de Adulão onde sabemos que poderemos repousar um pouco. Um lugar que preencha a nossa mente com os pensamentos de Deus, que envolva nossa imaginação com o amor que vem do Calvário. Quando nossas mentes são dominadas pêlos pensamentos e imaginações que nascem do medo, da incerteza, da desesperança, imaginações determinadas pêlos entendidos da economia e dos rumos da política externa, somos rapidamente tomados pela ansiedade e angústia tão comuns ao homem moderno. Davi, quando ainda era jovem, foi um dia levar pães e queijos para seus irmãos que se encontravam no campo de batalha. O cenário era de pânico e ansiedade. Do outro lado estava o exército dos filisteus, que tinha como arma o grande Golias, um gigante que duas vezes por dia desafiava e humilhava o povo de Deus. Ninguém tinha coragem para enfrentá-lo. Estratégias eram feitas e refeitas a todo tempo, mas ninguém arriscava dar o primeiro passo para lutar contra ele. Davi, diante do medo e da covardia dos seus irmãos, decide lutar. Rejeita a armadura que Saul, o rei, lhe havia oferecido e, em lugar disso, vai até o riacho, toma algumas pedras e, junto com sua funda, caminha em direção ao gigante. É uma cena de total implausibilidade. Ninguém acredita no que vê. Depois de umas quatro ou cinco voltas na funda, ele solta a pedra e derruba Golias.

Esta é uma história que demonstra bem a necessidade de cultivar esses lugares seguros e tranquilos. Davi vivia cuidando do rebanho de seu pai; ali ele compunha seus poemas, meditava na grandeza de Deus, contemplava sua majestade e poder. Sua mente era dominada pêlos pensamentos de Deus, o Deus que o havia ajudado a enfrentar leões e ursos. O vale de Ela, onde Golias ameaçava o povo de Deus, foi totalmente dominado por ele. Todos pensavam a partir de suas ameaças, seu poder e sua força; a imaginação de todo o povo era determinada por ele. Somente Davi, cujo coração havia aprendido a descansar em Deus e a ser dominado pêlos seus pensamentos, é que não se sujeitou aos gritos e à força de Golias. O mundo de Davi era dominado por Deus; ele o via a partir das suas profundas e verdadeiras experiências com o toque do amor e poder divinos. Ele foi o único que não se curvou diante do gigante.

Constantemente somos confrontados com os gigantes que nos ameaçam com seus gritos, força e poder. Com frequência nos vemos acuados, amedrontados, inseguros e ansiosos; toda a nossa mente e imaginação encontra-se dominada por eles. Andamos agitados, fazendo e refazendo contas, estratégias, buscando alguma saída. Precisamos aprender a parar, a buscar os lugares onde nossa alma encontre força, nossa fé é estimulada, nossa visão ampliada, porque na maioria das vezes a única realidade que conta é aquela que se encontra escondida, aquela que só nos é revelada nos encontros que temos com Deus. Os profetas viviam sob a sombra de promessas ainda não cumpridas, revelações ainda não concretizadas; mas estas eram as únicas realidades verdadeiramente reais. Eles contemplavam um mundo de paz e justiça em meio a grandes conflitos e desmandos, mas o que contemplavam era na verdade a única realidade. Não são os gigantes que determinam a realidade, é Deus. No entanto, essa realidade que pertence a Deus e aos seus olhos nos é revelada quando paramos para ouví-lo e conhecê-lo.

O mapa biográfico dos santos está repleto de lugares e altares onde se dão seus encontros com Deus; são os lugares seguros e tranquilos onde paramos para orar, ouvir, ser tocados e ter nosso coração e visão abertos para o mundo de Deus, um mundo que não é dominado pêlos gigantes, mas pelo Deus eterno.

Vamos juntos para um lugar tranquilo, a fim de orarmos e descansarmos.


Que Papai abençoe a todos
Missionário Adilson

Um comentário:

Carlos disse...

Poh... muito bom esse texto.

Vale a pena ler!

DTA